
Neste artigo
- Castrar cachorro: a resposta curta
- O vídeo que abriu a conversa
- O que o estudo da UC Davis fez
- O que o estudo achou no Doberman
- Idade para castrar cachorro: a tabela das 40 raças
- Benefícios da castração
- Riscos da castração em cada raça
- Castrar cachorro macho: quando faz sentido
- Castrar cadela: a idade e o cio
- Meu Doberman já é castrado: o que acompanhar
- Gastropexia: aproveitar a mesma anestesia
- O que tiramos dessa leitura
- Como decidir com o veterinário
- Perguntas frequentes
- De onde vêm os números
Castrar o cachorro protege de algumas doenças e aumenta o risco de outras, e a idade certa muda conforme a raça e o sexo. No Doberman, um dos estudos mais citados sobre o assunto, da Universidade da Califórnia em Davis, recomenda deixar o macho inteiro e, se for castrar a fêmea, não fazer antes dos 2 anos. Na maioria das outras 39 raças do mesmo estudo, a orientação é esperar pelo menos 6 a 12 meses, e algumas raças grandes pedem 2 anos. Nenhuma dessas idades é ordem: os próprios autores dizem que castrar ou não é uma decisão do tutor com o veterinário, olhando o cão que está na frente dele.
Este artigo nasceu de um vídeo. Um professor de reprodução animal, médico-veterinário com doutorado, afirmou que o Doberman "jamais deve ser castrado" e que a castração aumenta "de três a quatro vezes" o risco de câncer. Fomos atrás do estudo em que ele se apoia, lemos os dois artigos científicos inteiros e colocamos aqui o que eles mostram, inclusive o que o vídeo não disse.
Castrar cachorro: a resposta curta
- Doberman macho: a recomendação do estudo é deixar inteiro. Com poucos casos, os castrados depois de 1 ano tiveram mais câncer (6% e 13%) que os inteiros (2%), um aumento que os autores não conseguiram confirmar pela estatística.
- Doberman fêmea: se for castrar, não antes dos 24 meses. O motivo é a incontinência urinária, que apareceu em 19% a 25% das fêmeas castradas até os 2 anos.
- Outras raças: 25 das 40 raças do estudo podem ser castradas a partir dos 6 meses, no macho, sem aumento de risco de doença articular ou câncer. No macho de raças grandes como Pastor Alemão, Boxer e Bernese, o mínimo sobe para 24 meses. A tabela completa está mais abaixo.
- Benefícios reais da castração: na fêmea, acaba com o risco de piometra e, feita cedo, provavelmente reduz o câncer de mama; no macho, evita tumor de testículo e trata o aumento benigno da próstata.
- Riscos conhecidos: alguns cânceres e doenças de articulação em certas raças, incontinência urinária na fêmea e tendência a engordar.
- Se o seu cão já é castrado: uma seção inteira deste artigo mostra o que acompanhar daqui para frente.
O vídeo que abriu a conversa
O vídeo circula a partir do perfil @sistemapet, no Instagram, e junto do especialista aparece a tabela de 2024 do estudo de Davis. Quem fala é o professor Alexandre Rodrigues Silva, médico-veterinário com doutorado, que pesquisa a reprodução de cães e de animais silvestres. Ele é professor titular da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), em Mossoró, aqui no Rio Grande do Norte, onde coordena o Laboratório de Conservação de Germoplasma Animal, e coordena a área de Medicina Veterinária na CAPES, o órgão do Ministério da Educação que avalia a pós-graduação no país. Fez mestrado e doutorado em Ciências Veterinárias na Universidade Estadual do Ceará, com pesquisa sobre o congelamento de sêmen de cães. Ele publica sobre reprodução animal no perfil @alex.rodrigues.vet.
A fala, na nossa transcrição:
"O Doberman jamais deve ser castrado, porque eles provaram que quando você castra o Doberman os hormônios reprodutivos tinham um efeito protetivo muito significativo sobre o possível desencadeamento de neoplasias […] independente do momento em que eu castrar o Doberman, eu vou estar aumentando a probabilidade dele desenvolver determinados cânceres de três a quatro vezes. Então, por isso e também por outras possibilidades de outras patologias, como a incontinência urinária e também doenças articulares, não se deve jamais castrar um cão macho da raça Doberman."
A conclusão dele para o macho é a mesma da tabela dos autores: deixar inteiro. Os números por trás dela têm detalhes que ajudam o tutor a entender o tamanho do risco, e é isso que mostramos a seguir: quantos cães entraram no estudo, o que mudou com a idade da castração e o que os próprios autores dizem sobre a força da prova.
O que o estudo da UC Davis fez
A pesquisa é de Benjamin Hart, Lynette Hart, Abigail Thigpen e Neil Willits, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia em Davis, e foi publicada em julho de 2020 na revista científica Frontiers in Veterinary Science. O mesmo grupo começou a série em 2013, com o Golden Retriever, e seguiu com o Labrador e o Pastor Alemão antes de juntar 35 raças em 2020. Em 2024 a pesquisa ganhou mais cinco raças e chegou a 40.

O método é simples de entender. Os pesquisadores leram os prontuários do hospital veterinário da universidade, que atende mais de 50 mil casos por ano, cobrindo cerca de 15 anos de atendimentos. Para cada raça, separaram os cães por sexo e pela idade em que foram castrados: antes dos 6 meses, de 6 a 11 meses, com 1 ano (de 12 a 23 meses), de 2 a 8 anos, ou nunca. Depois compararam quantos cães de cada grupo tiveram três tipos de problema. Cada cão foi acompanhado até a última consulta no hospital, no máximo até os 11 anos; na média, isso foi por volta dos 5 ou 6 anos de idade.
- doenças de articulação: displasia de quadril, ruptura do ligamento cruzado e displasia de cotovelo;
- quatro cânceres: linfoma (câncer das ínguas), hemangiossarcoma (câncer dos vasos de sangue), mastocitoma (um tumor de pele) e osteossarcoma (câncer de osso);
- nas fêmeas, também câncer de mama, piometra e incontinência urinária.
Um cuidado do método: quando o cão já tinha a doença antes de ser castrado, ele contava como inteiro para aquela doença. Assim, a castração só leva a culpa pelo que apareceu depois dela.
Os autores apontam os limites do próprio trabalho: poucas raças, nenhuma informação sobre o motivo de cada cão ter sido castrado ou não, e um acompanhamento curto, que pega melhor as doenças que aparecem cedo. Além disso, os dados vêm de um único hospital-escola, que recebe muitos casos encaminhados, e em várias raças os grupos são pequenos. Com poucos animais, uma diferença de porcentagem pode ser acaso. Para separar uma coisa da outra existe o teste estatístico: quando o resultado passa nele, os autores o chamam de significativo, e quando não passa, de não significativo.
O que o estudo achou no Doberman
O artigo informa 358 Dobermans, divididos em 109 machos inteiros, 91 machos castrados, 53 fêmeas inteiras e 108 fêmeas castradas. Esses quatro grupos somam 361; a diferença de três cães está no próprio artigo, e não muda as porcentagens de cada grupo. Os resultados, com as palavras dos autores traduzidas:
| O que foi medido | Machos | Fêmeas |
|---|---|---|
| Doenças de articulação | 2% nos inteiros. Sem aumento evidente com a castração. | 0% nas inteiras. Castradas até 11 meses: 11%, aumento não significativo. |
| Câncer (linfoma, hemangiossarcoma, mastocitoma, osteossarcoma) | 2% nos inteiros. Castrados com 1 ano: 6%. Castrados de 2 a 8 anos: 13%. Aumento não significativo. | 2% nas inteiras. Nenhum aumento notável em qualquer idade de castração. |
| Câncer de mama | não se aplica | 2% nas inteiras e 4% nas castradas de 2 a 8 anos. |
| Piometra | não se aplica | 7% das inteiras. |
| Incontinência urinária | não estudada nos machos | Risco significativo nas castradas até os 2 anos: 25% nas castradas antes dos 6 meses e 19% nas castradas entre 1 e 2 anos. |
Arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Com esses números, a orientação de 2020 foi, nas palavras dos autores, "baseada em resultados fragmentários": para o macho, deixar inteiro ou castrar antes de 1 ano, para evitar o possível aumento de câncer visto nos castrados depois dessa idade; para a fêmea, também com dados limitados, considerar adiar a castração para depois dos 2 anos, por causa da incontinência e de um possível aumento de doença de articulação.
Na tabela-resumo, tanto em 2020 quanto em 2024, a marca do macho Doberman é "deixar inteiro"; a opção de castrar antes de 1 ano aparece só no texto de 2020 sobre a raça. O Doberman é a única raça das 40 com essa marca para o macho. Para a fêmea, a tabela de 2024 diz "não antes de 24 meses", com uma nota: essa idade vem da incontinência urinária, não de articulação nem de câncer. No texto de 2024 eles resumem o caso assim: a fêmea de Doberman não tem mais risco de articulação ou câncer se for castrada depois dos 12 meses, mas castrar entre 1 e 2 anos ainda leva a incontinência a 19% das cadelas.
"Três a quatro vezes": o que o número quer dizer
Fazendo a conta com as porcentagens, 6% é o triplo de 2%, e 13% é seis vezes e meia. O estudo não faz essa conta, e há um motivo: são poucos cães. Os 2% dos 109 machos inteiros são uns 2 animais, e os 91 machos castrados estão divididos em quatro faixas de idade. Com números tão pequenos, um caso a mais ou a menos muda muito a porcentagem, e por isso os autores escrevem que o aumento não foi significativo.
Isso deixa a pergunta em aberto: o efeito pode existir, e este estudo sozinho não consegue confirmar. Os autores recomendam deixar o macho inteiro para evitar esse possível aumento de câncer, mesmo sem a confirmação estatística, e chamam a base da recomendação de "resultados fragmentários".
Sobre o momento da castração, o estudo não mostrou aumento de câncer nos machos castrados antes de 1 ano; esses grupos também são pequenos, e a tabela dos autores não oferece essa opção. A incontinência urinária, que o vídeo também cita, só foi medida nas fêmeas, então o estudo não diz nada sobre ela no macho. E a doença de articulação não aumentou de forma confirmada em nenhum dos dois sexos: nos machos castrados não subiu, e nas fêmeas castradas antes de 1 ano foi a 11%, sem confirmação estatística.
Por que os hormônios fariam diferença
Para as doenças de articulação, os pesquisadores propõem uma explicação. Os hormônios sexuais ajudam a fechar as placas de crescimento dos ossos; castrado muito antes desse fechamento, o cão pode crescer um pouco mais nos ossos longos, e as articulações passam a trabalhar em ângulos diferentes. É uma hipótese dos autores. Para o câncer, eles atribuem os resultados à falta dos hormônios, mas um estudo feito com prontuários mostra associação e não consegue provar a causa.
Idade para castrar cachorro: a tabela das 40 raças
A tabela abaixo é a Tabela 1 do artigo de 2024, traduzida. Ela mostra, para cada raça e sexo, a idade mínima sugerida pelos autores para quem decidir castrar, a partir dos riscos de articulação e de câncer. Em algumas raças essa idade vem da cautela diante de um aumento que não chegou a ser confirmado, e no Doberman e no Pastor de Shetland fêmea, da incontinência urinária. Castrar ou não continua sendo outra pergunta.

| Raça | Macho: não antes de | Fêmea: não antes de |
|---|---|---|
| Beagle | 12 meses | 6 meses |
| Bernese | 24 meses | 6 meses |
| Boiadeiro Australiano | 6 meses | 6 meses |
| Border Collie | 12 meses | 12 meses |
| Boston Terrier | 12 meses | 6 meses |
| Boxer | 24 meses | 24 meses |
| Braco Alemão de Pelo Curto e de Pelo Duro | 12 meses | 12 meses |
| Buldogue | 6 meses | 6 meses |
| Cavalier King Charles Spaniel | 6 meses | 6 meses |
| Chihuahua | 6 meses | 6 meses |
| Cocker Spaniel | 6 meses | 24 meses |
| Collie | 6 meses | 12 meses |
| Corgi | 6 meses | 6 meses |
| Dachshund (salsicha) | 6 meses | 12 meses |
| Doberman | deixar inteiro | 24 meses (pela incontinência urinária) |
| Dogue Alemão | 6 meses | 6 meses |
| Golden Retriever | 12 meses | deixar inteira |
| Husky Siberiano | 6 meses | 12 meses |
| Jack Russell Terrier | 6 meses | 6 meses |
| Labrador | 6 meses | 12 meses |
| Lébrel Irlandês | 24 meses | 6 meses |
| Maltês | 6 meses | 6 meses |
| Mastiff | 24 meses | 12 meses |
| Pastor Alemão | 24 meses | 24 meses |
| Pastor Australiano | 6 meses | 6 meses* |
| Pastor de Shetland | 6 meses | 24 meses (pela incontinência urinária) |
| Poodle Miniatura | 12 meses | 6 meses |
| Poodle Standard (gigante) | 24 meses | 6 meses |
| Poodle Toy | 6 meses | 6 meses |
| Pug | 6 meses | 6 meses* |
| Rhodesian Ridgeback | 6 meses | 6 meses |
| Rottweiler | 12 meses | 6 meses |
| São Bernardo | 6 meses | 6 meses |
| Schnauzer Miniatura | 6 meses | 6 meses |
| Shih Tzu | 6 meses | 24 meses |
| Spitz Alemão Anão (Lulu da Pomerânia) | 6 meses | 6 meses |
| Springer Spaniel Inglês | 6 meses | 12 meses |
| Terra-Nova | 12 meses | 12 meses |
| West Highland White Terrier | 6 meses | 6 meses |
| Yorkshire Terrier | 6 meses | 6 meses |
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* No Pastor Australiano e no Pug, as fêmeas castradas cedo não tiveram aumento estatisticamente significativo, mas tiveram mais casos, que os autores acham que poderiam se confirmar com mais animais. Fonte: Hart LA et al., Frontiers in Veterinary Science, 2024, Tabela 1.
Contando as linhas: no macho, 25 raças ficam em 6 meses, 8 em 12 meses, 6 em 24 meses e uma, o Doberman, em deixar inteiro. Na fêmea, 24 ficam em 6 meses, 9 em 12 meses, 6 em 24 meses e uma, a Golden Retriever, em deixar inteira. Não existe, então, uma idade única para todo cachorro, e o tamanho da raça explica só parte do quadro: o Dogue Alemão e o São Bernardo, gigantes, aparecem em 6 meses, enquanto o Shih Tzu, pequeno, pede 24 meses na fêmea.
O seu cão é de uma raça que não está na lista, ou é sem raça definida? O mesmo grupo publicou em 2020 um estudo com cães mestiços divididos por peso adulto. Nos que pesam 20 kg ou mais, a castração antes de 1 ano foi associada a mais doença de articulação; abaixo disso, não. Em nenhuma faixa de peso o câncer aumentou de forma significativa. Para esses cães, a conversa com o veterinário parte do porte que ele vai ter quando adulto.
Benefícios da castração
A castração também tem benefícios de saúde bem documentados, e em muitos cães eles pesam mais que os riscos.
Na fêmea
- Piometra: é uma infecção grave do útero, que costuma aparecer semanas depois do cio e pode matar se não for operada a tempo. A castração tira o útero e, com ele, o risco. No estudo de Davis, 7% das Dobermans inteiras tiveram piometra. Nos dados de seguro de saúde animal da Suécia, quase um quarto das cadelas inteiras teve piometra até os 10 anos. Num estudo sueco de 2012, 62 de cada 100 Dobermans inteiras tiveram piometra ou tumor de mama, somados, até os 10 anos, o que pôs a raça entre as dez com mais casos. A diretriz de 2024 da associação mundial de veterinários de pequenos animais (WSAVA) também lista o Doberman entre as raças de risco para piometra e para tumor de mama.
- Câncer de mama: é um dos tumores mais comuns na cadela inteira. O número mais repetido em consultório vem de um estudo de 1969: comparado ao da cadela inteira, o risco cai para 0,5% com a castração antes do primeiro cio, 8% depois do primeiro e 26% depois do segundo, e a proteção some a partir do terceiro. Uma revisão sistemática de 2012 reavaliou 13 estudos e concluiu que a prova por trás desses números é fraca; a WSAVA diz que a proteção provavelmente existe, mas é menor do que se pensava. O estudo de Davis registrou 2% de câncer de mama nas Dobermans inteiras, e os próprios autores avisam que esse número fica abaixo do real, porque as cadelas saíram do registro antes da idade em que esse câncer costuma aparecer.
- Cio e gestação indesejada: a fêmea inteira entra no cio cerca de duas vezes por ano, com sangramento e machos interessados por perto. Para quem não pretende criar, isso pede manejo por toda a vida. O artigo sobre Doberman macho ou fêmea toca nesse ponto.
No macho
- Próstata: segundo a WSAVA, o aumento benigno da próstata atinge a maioria dos machos inteiros depois dos 5 anos, com o Doberman entre as raças predispostas, e a castração previne e trata. Por outro lado, o câncer de próstata aparece cerca de quatro vezes mais nos castrados, em dois estudos; ele é raro (menos de 1% dos cães) e não está provado que a castração seja a causa.
- Testículo: a castração elimina o risco de tumor de testículo. No macho com testículo retido na barriga (criptorquidismo), a retirada é indicada, porque esse testículo tem risco muito maior de virar tumor.
- Adenoma perianal: um tumor ao redor do ânus, dependente de hormônio, que aparece sobretudo em macho inteiro e costuma regredir depois da castração. Uma parte desses tumores é maligna e precisa de tratamento além da cirurgia.
Esses benefícios explicam por que a castração continua sendo indicada em muitas situações, inclusive no Doberman: quando há uma doença que ela trata, o raciocínio da tabela deixa de ser o principal. O que mudou foi a idade. A mesma diretriz da WSAVA diz que a castração muito cedo, entre 6 e 16 semanas de vida, não deve mais ser rotina na maioria dos casos, e pede que a decisão seja tomada caso a caso.
Riscos da castração em cada raça
Do outro lado ficam os riscos que o estudo de Davis e outros trabalhos encontraram, e eles mudam bastante de uma raça para outra.
- Articulações: displasia de quadril, de cotovelo e ruptura do ligamento cruzado aumentaram com a castração antes de 1 ano em várias raças grandes, como Labrador, Golden e Pastor Alemão. No Doberman, nenhum aumento confirmado.
- Câncer: linfoma, hemangiossarcoma, mastocitoma e osteossarcoma aumentaram com a castração em algumas raças. O caso mais citado é o Rottweiler: num estudo de 2002 com 683 cães, o risco de câncer de osso nos castrados antes de 1 ano foi 3,8 vezes o dos inteiros nos machos e 3,1 vezes nas fêmeas. No Doberman, como vimos, o sinal apareceu nos machos e não foi confirmado pela estatística.
- Incontinência urinária: é o ponto fraco da fêmea de Doberman. Ela perde gotas de urina, principalmente deitada ou dormindo; acredita-se que a falta dos hormônios enfraqueça o músculo que fecha a bexiga, e o problema costuma surgir alguns anos depois da cirurgia. Nas revisões, ela atinge de 3% a 20% das cadelas castradas em geral, e o Doberman aparece entre as raças predispostas; o estudo de Davis mediu entre 19% e 25% nas Dobermans castradas até os 2 anos.
- Hipotireoidismo: num estudo de 1994 com 66 cães, a castração e a raça Doberman apareceram, cada uma, como fator de risco para a tireoide preguiçosa. É uma associação, sem prova de causa.
- Peso: o cão castrado gasta menos energia. As diretrizes de nutrição usam um fator menor para o adulto castrado (de 1,4 a 1,6) do que para o inteiro (de 1,6 a 1,8), o que dá cerca de 10% menos comida para o mesmo cão. O risco de engordar é maior nos primeiros anos depois da castração.
Cachorro castrado vive mais?
Num estudo de 2013 com cerca de 40 mil cães atendidos em hospitais-escola da América do Norte, a idade média de morte foi de 9,4 anos nos castrados e de 7,9 anos nos inteiros. Os castrados morreram menos de infecção, trauma e doenças degenerativas, e mais de câncer e de doença autoimune. Os autores avisam que isso não prova que foi a castração: quem castra o cão pode também cuidar mais dele. O resultado conversa com os achados de Davis: a castração troca um conjunto de riscos por outro, e o saldo depende da raça, do sexo, da idade em que é feita e da vida que o cão leva.
Castrar cachorro macho: quando faz sentido
Para o Doberman macho saudável, a resposta do estudo é deixar inteiro. Há situações em que a castração entra por indicação médica, e aí a conta muda:

- testículo retido (criptorquidismo), em que a retirada evita tumor;
- tumor de testículo ou adenoma perianal já diagnosticado;
- aumento benigno da próstata com sintomas, como dificuldade para urinar ou fazer cocô;
- uma doença em que o veterinário avalie que o hormônio atrapalha o tratamento.
E o comportamento? Num estudo com 57 machos castrados depois dos 2 anos, a fuga, a monta e a marcação com urina melhoraram pelo menos pela metade em seis de cada dez cães. O medo de objetos e barulhos e a agressão a estranhos não tiveram mudança significativa. Num estudo maior, de 2018, com mais de 15 mil cães, a castração não mudou a agressão a pessoas da casa nem a outros cães, e houve um pouco mais de agressão a estranhos nos machos castrados entre 7 e 12 meses. A castração não substitui adestramento nem socialização. Dois machos inteiros adultos dividindo o mesmo espaço pedem mais atenção, como lembramos no artigo sobre o temperamento do Doberman.
Uma alternativa que a diretriz da WSAVA de 2024 pede que seja oferecida aos tutores de raças grandes de risco é a vasectomia: o cão deixa de ser fértil e mantém os testículos e os hormônios. Ela não traz os benefícios de próstata e de testículo da castração, e o cão ainda pode emprenhar uma fêmea por cerca de três semanas depois da cirurgia. Há poucos estudos de longo prazo sobre ela.
Castrar cadela: a idade e o cio
Para a fêmea de Doberman, a tabela de 2024 diz "não antes de 24 meses". Antes disso, o risco de incontinência é alto; depois dos 12 meses já não aparece aumento de articulação nem de câncer. Para quem decide castrar a cadela, a tabela aponta para depois dos 2 anos, e o veterinário escolhe o momento entre um cio e outro.

Esperar tem um custo que precisa entrar na conta. Até os 2 anos a cadela passa por três ou quatro cios, e cada um pede cuidado com machos por perto e com a casa. A cadela que passa do terceiro cio também perde a proteção contra o tumor de mama que a castração cedo poderia dar; essa proteção talvez seja menor do que se pensava, mas, numa raça em que 62 de cada 100 fêmeas inteiras tiveram piometra ou tumor de mama até os 10 anos no estudo sueco, ela pesa. É uma troca entre o risco de incontinência e o risco de mama e de piometra, e é para fazer com o veterinário. Quem espera precisa conhecer os sinais de piometra, porque ela pode aparecer em fêmea jovem:
- secreção pela vulva, com cheiro forte, nas semanas depois do cio (na piometra fechada pode não haver secreção nenhuma);
- muita sede e muito xixi;
- falta de apetite, apatia, barriga inchada, vômito ou febre.
Com qualquer um desses sinais depois do cio, a ida ao veterinário é no mesmo dia.
A cadela precisa ter uma ninhada antes de ser castrada? Não precisa. Nenhuma das diretrizes veterinárias consultadas recomenda isso, e a ideia aparece nos estudos como uma crença comum entre tutores, não como orientação.
Também existe a cirurgia que retira o útero e deixa os ovários, que a mesma diretriz de 2024 cita como alternativa para raças grandes de risco. A cadela não engravida, mas continua entrando no cio, produzindo hormônio e, ao que se supõe, com o risco de tumor de mama de uma fêmea inteira; para não ter piometra, o útero precisa sair por inteiro. É uma cirurgia menos conhecida, com poucos dados de longo prazo, e a decisão é para conversar com o cirurgião.
Meu Doberman já é castrado: o que acompanhar
Se o seu cão já foi castrado, inclusive cedo, não há motivo para culpa nem para alarme. O estudo fala de risco médio de um grupo, não do destino do seu cão: no grupo com mais câncer, 13 de cada 100 machos tiveram um desses quatro cânceres no tempo em que foram acompanhados, e os outros não. Como o câncer é mais comum no cão idoso, ao longo da vida inteira esse número pode ser maior. O que vale é acompanhar de perto.

- Peso e porção: ajuste a comida para o gasto menor e pese o cão uma vez por mês. O excesso de peso cobra das articulações e do coração. Como ajustar a alimentação em cada fase está no artigo de alimentação do Doberman.
- Exercício regular: músculo forte protege joelho e quadril, e é a melhor ajuda contra o ganho de peso.
- Check-up anual: exame físico completo, com apalpação de caroços e das ínguas (linfonodos), e exames de sangue a partir da meia-idade. No Doberman, o check-up também inclui o coração, como explicamos no artigo sobre saúde cardíaca do Doberman. Não encontramos estudo que mostre a castração aumentando a cardiomiopatia no Doberman; o cuidado com o coração é o mesmo, castrado ou não.
- Tireoide: ganho de peso sem comer mais, cansaço e pelo ralo ou opaco pedem o exame de tireoide, porque castração e raça aparecem, cada uma, ligadas a mais hipotireoidismo.
- Sinais de alerta de câncer em raça grande: caroço que cresce ou muda; manqueira que não passa em duas semanas ou dor num osso longo (pode ser osteossarcoma); gengiva pálida, fraqueza súbita ou barriga que cresce de repente (pode ser hemangiossarcoma, que sangra por dentro); ínguas aumentadas no pescoço ou atrás dos joelhos (pode ser linfoma). Nenhum desses sinais fecha diagnóstico; todos pedem consulta.
- Incontinência na fêmea: manchas de urina na cama, pelo molhado no fim da barriga ou lambedura frequente da região. Tem tratamento: na maioria das cadelas a perda de urina melhora com o remédio que o veterinário receita, mas nem todas respondem, e às vezes é preciso trocar ou combinar remédios. Não dê remédio por conta própria.
Gastropexia: aproveitar a mesma anestesia
O Doberman é um cão de peito fundo, e as raças de peito fundo têm mais risco de dilatação e torção do estômago, uma emergência que pode matar em poucas horas. A gastropexia preventiva fixa o estômago na parede da barriga e impede a torção. Quando o cão vai passar por anestesia para castrar, muitos cirurgiões oferecem fazer a gastropexia junto. Para quem decidiu castrar, essa é uma pergunta a levar ao veterinário. Explicamos a torção e a cirurgia no artigo sobre quanto vive um Doberman.
O que tiramos dessa leitura
Não somos médicos-veterinários. Somos criadores de Doberman, e o que fizemos aqui foi ler as fontes originais, com os números e a ressalva de cada uma, para que você chegue à consulta sabendo o que perguntar. Nossos cães de reprodução são inteiros, porque é isso que a criação exige. Castrar ou não, e quando, é decisão de quem convive com o cão, com o veterinário que o acompanha.
Duas coisas nos chamaram a atenção na leitura. A primeira é que o resultado que mais pesa na fêmea de Doberman é a incontinência urinária, um problema que costuma surpreender porque aparece anos depois da cirurgia. A segunda é o tamanho do grupo: cerca de 360 Dobermans parecem muitos, mas, divididos por sexo e por cinco faixas de idade, viram grupos pequenos. Por isso preferimos mostrar os números com a ressalva dos autores a repetir que a ciência "provou".
Como decidir com o veterinário
Leve estas perguntas para a consulta. Elas organizam a conversa e ajudam o veterinário a olhar o seu cão, não a média:

- Existe hoje alguma doença ou condição que a castração trate ou previna no meu cão?
- Qual a idade mínima recomendada para a raça e o sexo dele, e quando ele termina de crescer?
- Para a fêmea: como vamos manejar os cios até lá, e quais sinais de piometra eu preciso conhecer?
- Se castrar, vale fazer a gastropexia na mesma anestesia?
- Quais exames pré-anestésicos ele precisa, incluindo o coração?
- Como ajusto a alimentação depois, e com que frequência pesar?
O custo também entra na decisão; no artigo sobre quanto custa um Doberman está a faixa de preço da cirurgia.
Perguntas frequentes
Castrar cachorro faz mal?
Depende da raça, do sexo e da idade. A castração previne doenças sérias, como a piometra e o tumor de testículo, e em algumas raças aumenta o risco de articulação, de certos cânceres ou de incontinência urinária. Por isso a idade certa muda de raça para raça.
Com quantos meses pode castrar cachorro?
No estudo de Davis, a maioria das 40 raças pode ser castrada a partir de 6 meses sem aumento de risco de articulação ou câncer. Várias raças grandes pedem 12 ou 24 meses, e no Doberman a tabela marca deixar o macho inteiro e, se for castrar a fêmea, não antes dos 24 meses.
Qual a idade certa para castrar um Doberman?
Macho: a tabela do estudo de Davis marca "deixar inteiro". Fêmea: se for castrar, não antes dos 24 meses, por causa do risco de incontinência urinária. Doença que a castração trate muda a conta, e quem avalia é o veterinário.
Cachorro castrado vive mais?
Num estudo com cerca de 40 mil cães, a idade média de morte foi de 9,4 anos nos castrados e de 7,9 nos inteiros. Os autores avisam que isso não prova que a castração seja a causa, porque quem castra pode também cuidar mais do cão.
Castrar acalma o cachorro?
Reduz, em boa parte dos machos, comportamentos ligados ao hormônio, como marcar território com urina, montar e fugir atrás de fêmea no cio. Agressão a pessoas da casa não muda, e a castração não resolve medo nem falta de treino.
Doberman castrado continua sendo bom cão de guarda?
A guarda depende de temperamento, socialização e treino. No Doberman, a recomendação de não castrar o macho vem da saúde, e não do trabalho de guarda.
Cadela castrada engorda?
Ela passa a gastar menos energia, então engorda se continuar comendo a mesma quantidade. Com porção ajustada e exercício, mantém o peso.
A cadela precisa ter uma cria antes de castrar?
Não precisa. Não há evidência de benefício de saúde em ter uma ninhada antes da castração.
Castrar previne câncer?
Previne alguns e aumenta o risco de outros. Acaba com o tumor de testículo e, na fêmea castrada cedo, provavelmente reduz o câncer de mama, embora menos do que se pensava. Em algumas raças, aumenta linfoma, hemangiossarcoma, mastocitoma ou câncer de osso.
Minha cadela castrada está perdendo xixi. Tem tratamento?
Tem. Depois de descartar infecção urinária e outras causas, o veterinário pode receitar remédio, e a maioria das cadelas melhora; nem todas respondem ao primeiro tratamento.
O estudo vale para cães do Brasil?
Os cães são dos Estados Unidos. A raça é a mesma, mas as linhagens variam de país para país, e os próprios autores lembram que diferenças de linhagem podem mudar os números. Não encontramos estudo brasileiro sobre idade de castração por raça, nem posição do Conselho Federal de Medicina Veterinária sobre a idade certa.
Por que o vídeo diz "três a quatro vezes" e o artigo diz que não foi provado?
As duas coisas convivem. Pelas porcentagens, o câncer nos machos castrados de Doberman foi de três a seis vezes e meia o dos inteiros, mas com tão poucos casos o teste estatístico não descarta o acaso. Os autores recomendam deixar o macho inteiro mesmo assim, para evitar esse possível aumento.
De onde vêm os números
Este artigo explica o que dizem as pesquisas e não substitui a consulta com o médico-veterinário do seu cão. Cada número tem a sua fonte abaixo.
- O estudo principal, com os Dobermans: Hart BL, Hart LA, Thigpen AP, Willits NH. Assisting Decision-Making on Age of Neutering for 35 Breeds of Dogs: Associated Joint Disorders, Cancers, and Urinary Incontinence. Frontiers in Veterinary Science, 2020;7:388.
- A atualização com 40 raças e a tabela das idades: Hart LA, Thigpen AP, Hart BL, Willits NH et al. Assisting decision-making on age of neutering for German Short/Wirehaired Pointer, Mastiff, Newfoundland, Rhodesian Ridgeback, Siberian Husky: associated joint disorders, cancers, and urinary incontinence. Frontiers in Veterinary Science, 2024;11:1322276.
- Cães mestiços por peso: Hart BL, Hart LA, Thigpen AP, Willits NH. Frontiers in Veterinary Science, 2020;7:472. Golden Retriever, o primeiro da série: Torres de la Riva G et al. PLoS ONE, 2013;8(2):e55937.
- Diretriz de controle reprodutivo da WSAVA: Romagnoli S et al. Journal of Small Animal Practice, 2024;65(7):424-559. Benefícios e riscos por idade, e a crença da ninhada antes da castração: Root Kustritz MV. JAVMA, 2007;231(11):1665-1675.
- Rottweiler e câncer de osso: Cooley DM et al. Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, 2002;11(11):1434-1440.
- Expectativa de vida e causa de morte: Hoffman JM, Creevy KE, Promislow DEL. PLoS ONE, 2013;8(4):e61082.
- Câncer de mama: Schneider R, Dorn CR, Taylor DON. Journal of the National Cancer Institute, 1969;43(6):1249-1261; a revisão sistemática de Beauvais W, Cardwell JM, Brodbelt DC. Journal of Small Animal Practice, 2012;53(6):314-322.
- Piometra na Suécia: Egenvall A et al. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2001;15(6):530-538; Jitpean S et al. Reproduction in Domestic Animals, 2012;47(Supl. 6):347-350.
- Câncer de próstata em castrados: Teske E et al. Molecular and Cellular Endocrinology, 2002;197(1-2):251-255; Bryan JN et al. The Prostate, 2007;67(11):1174-1181.
- Incontinência urinária, próstata e adenoma perianal: a diretriz da WSAVA acima; incontinência também em Merck Animal Health.
- Hipotireoidismo: Panciera DL. JAVMA, 1994;204(5):761-767.
- Comportamento do macho castrado: Neilson JC, Eckstein RA, Hart BL. JAVMA, 1997;211(2):180-182; Farhoody P et al. Frontiers in Veterinary Science, 2018;5:18.
- Vasectomia e cirurgia que mantém os ovários: Kutzler MA. Frontiers in Veterinary Science, 2020;7:342.
- Energia do cão castrado e do inteiro: Diretrizes de Nutrição e Controle de Peso da AAHA, 2021.
- Gastropexia na mesma cirurgia: Colégio Americano de Cirurgiões Veterinários (ACVS), dilatação e torção gástrica.
- Cria antes da castração: RSPCA, castração.
- O vídeo do especialista: perfil @sistemapet no Instagram. O professor Alexandre Rodrigues Silva: perfil @alex.rodrigues.vet e currículo na Plataforma Lattes do CNPq (dados de 10/07/2026).

Quem escreve
Marcelo Vaz
Empresário e fundador da Dobs Kennel
Marcelo Vaz é empresário e fundador da Dobs Kennel, canil de Dobermans em Nísia Floresta (RN). Ainda menino, já sabia qual cachorro queria ter. A paixão pelo Doberman atravessou os anos e virou o canil que ele conduz com a seriedade de quem esperou muito por isso. “Não somos veterinários, mas estudamos cada assunto a fundo e só escrevemos o que tem base na ciência e em fontes confiáveis”, diz.
- RegistroCBKC / FCI
- AfixoImperio Real Norte
- OndeNísia Floresta, RN
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