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SaúdePublicado em 04 de nov. de 2026

Doença do carrapato em cachorro tem cura? Sintomas, exame e tratamento

Marcelo Vaz

Por Marcelo VazEmpresário e fundador da Dobs Kennel

Doberman adulto de orelha em pé sendo examinado por uma veterinária, que procura carrapatos atrás da orelha dele
12 min de leitura · 2.282 palavrasAtualizado em 04/11/2026

Doença do carrapato é o nome popular da erliquiose canina, a infecção pela bactéria Ehrlichia canis, que o carrapato-marrom passa ao cão pela picada. Ela tem tratamento com antibiótico receitado pelo veterinário, e o cão tratado na fase aguda costuma melhorar em 24 a 48 horas. O problema é o cão que passa semanas sem diagnóstico: uma parte dos infectados avança para a fase crônica, em que a medula óssea produz menos células de sangue e o prognóstico pode ficar grave. Por isso a doença do carrapato pede exame cedo, mesmo quando o cachorro só parece abatido.

Este guia explica como o cão pega, os sintomas de cada fase, os exames que confirmam, o que o tratamento consegue e o que não consegue, quanto a doença é comum no Brasil e no Rio Grande do Norte, e o cuidado a mais que vale para quem tem Doberman. Quem diagnostica e trata é o médico-veterinário; o papel do tutor é perceber cedo e não adiar a consulta.

O que é a doença do carrapato

A Ehrlichia canis é uma bactéria que vive dentro de um tipo de glóbulo branco, o monócito. Por isso o nome técnico completo é erliquiose monocítica canina. No Brasil ela é a principal espécie de Ehrlichia encontrada em cães, segundo a revisão de Vieira e colegas publicada na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária em 2011, que diz que a doença parece ser altamente endêmica em várias regiões do país, embora faltem dados de muitas delas.

O nome popular junta mais coisa do que a erliquiose. O mesmo carrapato-marrom (Rhipicephalus sanguineus) transmite outros agentes que também derrubam as plaquetas ou causam anemia, como a Anaplasma platys, a Babesia vogeli e o Hepatozoon canis. Num levantamento por PCR com 120 cães atendidos numa clínica de Mossoró, no semiárido potiguar, a Ehrlichia canis apareceu em 13,3% dos animais e a Anaplasma platys em 11,7%, e houve cão com dois ou três agentes ao mesmo tempo (Nogueira e colegas, Pesquisa Veterinária Brasileira, 2024). É por isso que "doença do carrapato" serve para a conversa, mas o veterinário vai querer saber qual agente está ali.

Como o cachorro pega a erliquiose

O caminho principal é a picada do carrapato-marrom infectado. A diretriz europeia de Sainz e colegas (Parasites & Vectors, 2015) registra que a transmissão da E. canis pode começar dentro de 3 horas depois que o carrapato se fixa na pele. Ou seja, tirar o carrapato no fim do dia ajuda, mas não garante nada: o produto que mata ou repele o carrapato rápido conta mais.

A segunda via é a transfusão de sangue. O Merck Veterinary Manual alerta que um doador com teste negativo não pode ser dado como livre da infecção por várias semanas, e a diretriz europeia recomenda triagem por PCR do sangue doado em áreas muito endêmicas.

O clima pesa. A revisão brasileira de 2011 lembra que a erliquiose é mais comum nas regiões tropicais e subtropicais, onde o carrapato vetor vive. A diretriz europeia acrescenta que o carrapato-marrom se abriga bem dentro de casa, em canil e em frestas de construções. Não é preciso mato para o cão ter contato com ele.

Sintomas da doença do carrapato, fase por fase

A erliquiose tem três momentos, e os sinais mudam de um para outro. A diretriz de 2015 descreve uma incubação de 1 a 3 semanas depois da picada.

FaseQuandoO que pode aparecer
AgudaComeça 1 a 3 semanas depois da infecção e pode durar 2 a 4 semanasFebre, apatia, falta de apetite, fraqueza, gânglios inchados, baço aumentado, perda de peso. Às vezes sangramento: pontinhos roxos na pele ou na gengiva, sangue no nariz, fezes escuras
SubclínicaDepois da aguda, por meses ou anosNenhum sinal visível. O cão parece saudável e pode seguir infectado
CrônicaSó em parte dos cãesSangramentos, mucosas pálidas, emagrecimento forte, inflamação nos olhos, problema nos rins, sinais neurológicos como falta de coordenação

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Alguns cães melhoram sozinhos da fase aguda, e isso engana. O Merck Veterinary Manual diz que a maioria dos cães elimina a infecção em 2 a 4 semanas, mas a diretriz europeia acrescenta que alguns ficam portadores por meses e anos, sem sinal nenhum, e que parte dos infectados avança para a fase crônica. Febre que vai e volta, cão que come menos sem motivo e manchinhas roxas na barriga merecem consulta, mesmo que o cão pareça ter melhorado.

A versão do Merck para tutores lista ainda rigidez ou relutância em andar, inchaço nas patas e tosse ou respiração difícil entre os sinais possíveis da fase inicial, e diz que o Pastor Alemão parece mais suscetível à forma longa. A diretriz europeia coloca o Pastor Alemão e o Husky Siberiano entre as raças com sinais mais graves e prognóstico pior.

Exame de erliquiose: como o veterinário confirma

O primeiro alerta costuma vir do hemograma. A diretriz de 2015 chama a queda de plaquetas (trombocitopenia) de achado mais comum na erliquiose e na anaplasmose. A revisão brasileira reúne estudos que mostram por quê: em Botucatu, 63% dos cães com plaquetas muito baixas eram positivos para E. canis, contra 21% dos que tinham queda leve.

Depois do hemograma, o veterinário escolhe entre os testes que existem:

  • Esfregaço de sangue. Mostra a bactéria dentro da célula, mas o Merck o chama de pouco sensível. Resultado negativo não descarta.
  • Sorologia (teste rápido de clínica ou imunofluorescência). Procura anticorpos. A diretriz europeia lembra que eles costumam aparecer só 12 a 14 dias depois da infecção, então um teste feito cedo demais pode dar negativo.
  • PCR. Procura o material genético da bactéria e separa as espécies. Pode falhar quando há pouca bactéria no sangue ou quando o cão já tomou antibiótico.

Na suspeita forte, o Merck orienta tratar enquanto o resultado não sai: sorologia negativa no começo não deve interromper o tratamento. Teste positivo em cão sem sintoma também pede leitura do veterinário, porque anticorpo indica contato com a bactéria, e a diretriz recomenda confirmar com PCR.

Doença do carrapato tem cura? O que o tratamento faz

O antibiótico de escolha nas duas referências é a doxiciclina, por 4 semanas (28 dias). A dose depende do peso e quem define é o veterinário; o Merck cita a minociclina como alternativa quando falta doxiciclina. Interromper o remédio porque o cão melhorou em dois dias é o erro que a diretriz de 2015 ajuda a evitar: o bom prognóstico que ela descreve vale para o curso completo.

Na fase aguda, a febre deve ceder em 24 a 48 horas de tratamento, segundo o Merck. Quando as plaquetas caem muito ou há anemia por sangramento, pode ser preciso transfusão e internação. Na fase crônica, a resposta clínica vem bem antes da recuperação do sangue: o Merck registra que as alterações do hemograma podem durar 3 a 6 meses mesmo com tratamento, e recomenda repetir sorologia e PCR depois de 6 meses.

Sobre a palavra cura, as fontes são cautelosas. A diretriz europeia diz que é difícil confirmar a eliminação completa da bactéria em cão infectado naturalmente, e que a forma crônica grave tem prognóstico grave, com a queda forte de todas as células do sangue (pancitopenia) apontada como fator de risco de morte. Ela também diz que ter tido erliquiose não dá imunidade permanente: o cão pode se infectar de novo.

Quanto a erliquiose é comum no Brasil e no Rio Grande do Norte

A revisão de 2011 juntou levantamentos por sorologia (anticorpos) de vários estados. Os números variam muito porque cada estudo olhou uma população diferente:

  • Mato Grosso: 42,5%. Rondônia: 36%.
  • Bahia: 35,6%.
  • Áreas rurais de Minas Gerais: de 24,7% a 65,6%.
  • Rio Grande do Sul: 4,8%.

Em Natal, na Grande Natal, região onde fica o canil, um estudo publicado em 2019 na mesma revista (Lopes e colegas) testou 102 cães, 29 que moravam em casas em volta de dois parques e 73 do centro de controle de animais da cidade: 17% tinham anticorpos contra E. canis. Em 20 amostras de baço de cães do centro de controle, o PCR achou a bactéria em 8, e o carrapato-marrom estava em 11 dos 29 cães examinados para carrapato. Nenhum desses números é a taxa da cidade inteira, mas eles mostram que a bactéria circula na região.

Como prevenir a doença do carrapato

Não existe vacina comercial contra a Ehrlichia canis, segundo a diretriz europeia. A prevenção inteira passa por manter o carrapato longe do cão:

  1. Antiparasitário contínuo, indicado pelo veterinário. O Merck cita produtos com fipronil, isoxazolinas, piretroides ou amitraz, que funcionam melhor quando usados como diz a bula. Como a transmissão pode começar em poucas horas, a diretriz europeia dá preferência aos de ação rápida.
  2. Olhar o cão depois do passeio. Entre os dedos, atrás das orelhas, no pescoço e na virilha.
  3. Tirar o carrapato do jeito certo. Pinça fina, segurando bem rente à pele, puxando reto, como orienta o Merck.
  4. Cuidar do ambiente. O carrapato-marrom completa o ciclo em canil, quintal e casinha. A diretriz europeia inclui canis e jardins no controle; o produto para o ambiente também deve vir com orientação do veterinário.

Para quem está montando o orçamento do cão, o antiparasitário entra como gasto fixo do ano todo. A conta completa está em quanto custa manter um Doberman por mês, e a lista do que preparar antes da chegada fica em a primeira semana do filhote em casa.

O que muda para quem tem Doberman

As fontes não colocam o Doberman entre as raças com erliquiose mais grave; quem aparece nessa lista é o Pastor Alemão. O ponto de atenção da raça é outro: a doença de von Willebrand, um distúrbio hereditário da coagulação. O Merck Veterinary Manual coloca o Doberman entre as raças em que ela é relativamente comum, com prevalência de 10% a 70% no grupo de raças que o manual lista, e lembra que muitos cães afetados não mostram sinal nenhum.

Uma doença mexe na quantidade de plaquetas; a outra, no fator que ajuda as plaquetas a fechar o machucado. Por isso, se o seu Doberman tiver suspeita de erliquiose, conte ao veterinário a raça e o resultado do teste de von Willebrand, se ele tiver. Essa informação pode pesar na decisão sobre exames, procedimentos e transfusão. O que perguntar ao criador sobre a saúde dos pais está em como reconhecer um criador sério.

A saúde do coração é o outro assunto da raça que todo dono acompanha, com exames próprios, e está em como avaliar a saúde cardíaca de um Doberman. A erliquiose não tem nada de genético: qualquer cão exposto ao carrapato pode pegar, e outra doença infecciosa que todo dono de filhote precisa conhecer está em cinomose: sintomas, tratamento e vacina.

Perguntas frequentes

Doença do carrapato passa para humanos?

O cão não passa erliquiose direto para a pessoa, segundo o Merck. Algumas espécies de Ehrlichia infectam gente pela picada do carrapato, e um cão infectado indica que há risco de doença transmitida por carrapato naquela área. No Brasil, a revisão de 2011 cita evidência por sorologia de erliquiose humana, mas diz que o agente ainda não foi confirmado.

Cachorro que já teve doença do carrapato pode pegar de novo?

Pode. A diretriz europeia diz que a infecção anterior não deixa imunidade permanente. A prevenção com antiparasitário continua depois do tratamento.

Quanto tempo dura o tratamento da erliquiose?

O padrão das diretrizes é de 4 semanas de antibiótico. Na fase crônica, o hemograma pode levar 3 a 6 meses para se normalizar, e o veterinário repete os exames para acompanhar.

O teste rápido deu positivo, mas o cachorro está bem. E agora?

Positivo na sorologia mostra que o cão teve contato com a bactéria; não diz sozinho se a infecção está ativa. O veterinário cruza o resultado com o hemograma e pode pedir PCR, como recomenda a diretriz de 2015, antes de decidir.

Posso dar o antibiótico em casa sem levar ao veterinário?

Não. Dose, tempo de uso e os exames de controle dependem do peso, da fase da doença e de outros agentes que podem estar juntos. Remédio pela metade pode deixar a infecção sem resolver.

De onde vêm os números

Este artigo reúne informação de referência e não substitui a consulta com o médico-veterinário do seu cão, que examina, pede os exames e decide o tratamento. As fontes:

Marcelo Vaz, empresário e fundador da Dobs Kennel

Quem escreve

Marcelo Vaz

Empresário e fundador da Dobs Kennel

Marcelo Vaz é empresário e fundador da Dobs Kennel, canil de Dobermans em Nísia Floresta (RN). Ainda menino, já sabia qual cachorro queria ter. A paixão pelo Doberman atravessou os anos e virou o canil que ele conduz com a seriedade de quem esperou muito por isso. “Não somos veterinários, mas estudamos cada assunto a fundo e só escrevemos o que tem base na ciência e em fontes confiáveis”, diz.

  • RegistroCBKC / FCI
  • AfixoImperio Real Norte
  • OndeNísia Floresta, RN
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