
Neste artigo
- O que é a doença do carrapato
- Como o cachorro pega a erliquiose
- Sintomas da doença do carrapato, fase por fase
- Exame de erliquiose: como o veterinário confirma
- Doença do carrapato tem cura? O que o tratamento faz
- Quanto a erliquiose é comum no Brasil e no Rio Grande do Norte
- Como prevenir a doença do carrapato
- O que muda para quem tem Doberman
- Perguntas frequentes
- De onde vêm os números
Doença do carrapato é o nome popular da erliquiose canina, a infecção pela bactéria Ehrlichia canis, que o carrapato-marrom passa ao cão pela picada. Ela tem tratamento com antibiótico receitado pelo veterinário, e o cão tratado na fase aguda costuma melhorar em 24 a 48 horas. O problema é o cão que passa semanas sem diagnóstico: uma parte dos infectados avança para a fase crônica, em que a medula óssea produz menos células de sangue e o prognóstico pode ficar grave. Por isso a doença do carrapato pede exame cedo, mesmo quando o cachorro só parece abatido.
Este guia explica como o cão pega, os sintomas de cada fase, os exames que confirmam, o que o tratamento consegue e o que não consegue, quanto a doença é comum no Brasil e no Rio Grande do Norte, e o cuidado a mais que vale para quem tem Doberman. Quem diagnostica e trata é o médico-veterinário; o papel do tutor é perceber cedo e não adiar a consulta.
O que é a doença do carrapato
A Ehrlichia canis é uma bactéria que vive dentro de um tipo de glóbulo branco, o monócito. Por isso o nome técnico completo é erliquiose monocítica canina. No Brasil ela é a principal espécie de Ehrlichia encontrada em cães, segundo a revisão de Vieira e colegas publicada na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária em 2011, que diz que a doença parece ser altamente endêmica em várias regiões do país, embora faltem dados de muitas delas.
O nome popular junta mais coisa do que a erliquiose. O mesmo carrapato-marrom (Rhipicephalus sanguineus) transmite outros agentes que também derrubam as plaquetas ou causam anemia, como a Anaplasma platys, a Babesia vogeli e o Hepatozoon canis. Num levantamento por PCR com 120 cães atendidos numa clínica de Mossoró, no semiárido potiguar, a Ehrlichia canis apareceu em 13,3% dos animais e a Anaplasma platys em 11,7%, e houve cão com dois ou três agentes ao mesmo tempo (Nogueira e colegas, Pesquisa Veterinária Brasileira, 2024). É por isso que "doença do carrapato" serve para a conversa, mas o veterinário vai querer saber qual agente está ali.
Como o cachorro pega a erliquiose
O caminho principal é a picada do carrapato-marrom infectado. A diretriz europeia de Sainz e colegas (Parasites & Vectors, 2015) registra que a transmissão da E. canis pode começar dentro de 3 horas depois que o carrapato se fixa na pele. Ou seja, tirar o carrapato no fim do dia ajuda, mas não garante nada: o produto que mata ou repele o carrapato rápido conta mais.
A segunda via é a transfusão de sangue. O Merck Veterinary Manual alerta que um doador com teste negativo não pode ser dado como livre da infecção por várias semanas, e a diretriz europeia recomenda triagem por PCR do sangue doado em áreas muito endêmicas.
O clima pesa. A revisão brasileira de 2011 lembra que a erliquiose é mais comum nas regiões tropicais e subtropicais, onde o carrapato vetor vive. A diretriz europeia acrescenta que o carrapato-marrom se abriga bem dentro de casa, em canil e em frestas de construções. Não é preciso mato para o cão ter contato com ele.
Sintomas da doença do carrapato, fase por fase
A erliquiose tem três momentos, e os sinais mudam de um para outro. A diretriz de 2015 descreve uma incubação de 1 a 3 semanas depois da picada.
| Fase | Quando | O que pode aparecer |
|---|---|---|
| Aguda | Começa 1 a 3 semanas depois da infecção e pode durar 2 a 4 semanas | Febre, apatia, falta de apetite, fraqueza, gânglios inchados, baço aumentado, perda de peso. Às vezes sangramento: pontinhos roxos na pele ou na gengiva, sangue no nariz, fezes escuras |
| Subclínica | Depois da aguda, por meses ou anos | Nenhum sinal visível. O cão parece saudável e pode seguir infectado |
| Crônica | Só em parte dos cães | Sangramentos, mucosas pálidas, emagrecimento forte, inflamação nos olhos, problema nos rins, sinais neurológicos como falta de coordenação |
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Alguns cães melhoram sozinhos da fase aguda, e isso engana. O Merck Veterinary Manual diz que a maioria dos cães elimina a infecção em 2 a 4 semanas, mas a diretriz europeia acrescenta que alguns ficam portadores por meses e anos, sem sinal nenhum, e que parte dos infectados avança para a fase crônica. Febre que vai e volta, cão que come menos sem motivo e manchinhas roxas na barriga merecem consulta, mesmo que o cão pareça ter melhorado.
A versão do Merck para tutores lista ainda rigidez ou relutância em andar, inchaço nas patas e tosse ou respiração difícil entre os sinais possíveis da fase inicial, e diz que o Pastor Alemão parece mais suscetível à forma longa. A diretriz europeia coloca o Pastor Alemão e o Husky Siberiano entre as raças com sinais mais graves e prognóstico pior.
Exame de erliquiose: como o veterinário confirma
O primeiro alerta costuma vir do hemograma. A diretriz de 2015 chama a queda de plaquetas (trombocitopenia) de achado mais comum na erliquiose e na anaplasmose. A revisão brasileira reúne estudos que mostram por quê: em Botucatu, 63% dos cães com plaquetas muito baixas eram positivos para E. canis, contra 21% dos que tinham queda leve.
Depois do hemograma, o veterinário escolhe entre os testes que existem:
- Esfregaço de sangue. Mostra a bactéria dentro da célula, mas o Merck o chama de pouco sensível. Resultado negativo não descarta.
- Sorologia (teste rápido de clínica ou imunofluorescência). Procura anticorpos. A diretriz europeia lembra que eles costumam aparecer só 12 a 14 dias depois da infecção, então um teste feito cedo demais pode dar negativo.
- PCR. Procura o material genético da bactéria e separa as espécies. Pode falhar quando há pouca bactéria no sangue ou quando o cão já tomou antibiótico.
Na suspeita forte, o Merck orienta tratar enquanto o resultado não sai: sorologia negativa no começo não deve interromper o tratamento. Teste positivo em cão sem sintoma também pede leitura do veterinário, porque anticorpo indica contato com a bactéria, e a diretriz recomenda confirmar com PCR.
Doença do carrapato tem cura? O que o tratamento faz
O antibiótico de escolha nas duas referências é a doxiciclina, por 4 semanas (28 dias). A dose depende do peso e quem define é o veterinário; o Merck cita a minociclina como alternativa quando falta doxiciclina. Interromper o remédio porque o cão melhorou em dois dias é o erro que a diretriz de 2015 ajuda a evitar: o bom prognóstico que ela descreve vale para o curso completo.
Na fase aguda, a febre deve ceder em 24 a 48 horas de tratamento, segundo o Merck. Quando as plaquetas caem muito ou há anemia por sangramento, pode ser preciso transfusão e internação. Na fase crônica, a resposta clínica vem bem antes da recuperação do sangue: o Merck registra que as alterações do hemograma podem durar 3 a 6 meses mesmo com tratamento, e recomenda repetir sorologia e PCR depois de 6 meses.
Sobre a palavra cura, as fontes são cautelosas. A diretriz europeia diz que é difícil confirmar a eliminação completa da bactéria em cão infectado naturalmente, e que a forma crônica grave tem prognóstico grave, com a queda forte de todas as células do sangue (pancitopenia) apontada como fator de risco de morte. Ela também diz que ter tido erliquiose não dá imunidade permanente: o cão pode se infectar de novo.
Quanto a erliquiose é comum no Brasil e no Rio Grande do Norte
A revisão de 2011 juntou levantamentos por sorologia (anticorpos) de vários estados. Os números variam muito porque cada estudo olhou uma população diferente:
- Mato Grosso: 42,5%. Rondônia: 36%.
- Bahia: 35,6%.
- Áreas rurais de Minas Gerais: de 24,7% a 65,6%.
- Rio Grande do Sul: 4,8%.
Em Natal, na Grande Natal, região onde fica o canil, um estudo publicado em 2019 na mesma revista (Lopes e colegas) testou 102 cães, 29 que moravam em casas em volta de dois parques e 73 do centro de controle de animais da cidade: 17% tinham anticorpos contra E. canis. Em 20 amostras de baço de cães do centro de controle, o PCR achou a bactéria em 8, e o carrapato-marrom estava em 11 dos 29 cães examinados para carrapato. Nenhum desses números é a taxa da cidade inteira, mas eles mostram que a bactéria circula na região.
Como prevenir a doença do carrapato
Não existe vacina comercial contra a Ehrlichia canis, segundo a diretriz europeia. A prevenção inteira passa por manter o carrapato longe do cão:
- Antiparasitário contínuo, indicado pelo veterinário. O Merck cita produtos com fipronil, isoxazolinas, piretroides ou amitraz, que funcionam melhor quando usados como diz a bula. Como a transmissão pode começar em poucas horas, a diretriz europeia dá preferência aos de ação rápida.
- Olhar o cão depois do passeio. Entre os dedos, atrás das orelhas, no pescoço e na virilha.
- Tirar o carrapato do jeito certo. Pinça fina, segurando bem rente à pele, puxando reto, como orienta o Merck.
- Cuidar do ambiente. O carrapato-marrom completa o ciclo em canil, quintal e casinha. A diretriz europeia inclui canis e jardins no controle; o produto para o ambiente também deve vir com orientação do veterinário.
Para quem está montando o orçamento do cão, o antiparasitário entra como gasto fixo do ano todo. A conta completa está em quanto custa manter um Doberman por mês, e a lista do que preparar antes da chegada fica em a primeira semana do filhote em casa.
O que muda para quem tem Doberman
As fontes não colocam o Doberman entre as raças com erliquiose mais grave; quem aparece nessa lista é o Pastor Alemão. O ponto de atenção da raça é outro: a doença de von Willebrand, um distúrbio hereditário da coagulação. O Merck Veterinary Manual coloca o Doberman entre as raças em que ela é relativamente comum, com prevalência de 10% a 70% no grupo de raças que o manual lista, e lembra que muitos cães afetados não mostram sinal nenhum.
Uma doença mexe na quantidade de plaquetas; a outra, no fator que ajuda as plaquetas a fechar o machucado. Por isso, se o seu Doberman tiver suspeita de erliquiose, conte ao veterinário a raça e o resultado do teste de von Willebrand, se ele tiver. Essa informação pode pesar na decisão sobre exames, procedimentos e transfusão. O que perguntar ao criador sobre a saúde dos pais está em como reconhecer um criador sério.
A saúde do coração é o outro assunto da raça que todo dono acompanha, com exames próprios, e está em como avaliar a saúde cardíaca de um Doberman. A erliquiose não tem nada de genético: qualquer cão exposto ao carrapato pode pegar, e outra doença infecciosa que todo dono de filhote precisa conhecer está em cinomose: sintomas, tratamento e vacina.
Perguntas frequentes
Doença do carrapato passa para humanos?
O cão não passa erliquiose direto para a pessoa, segundo o Merck. Algumas espécies de Ehrlichia infectam gente pela picada do carrapato, e um cão infectado indica que há risco de doença transmitida por carrapato naquela área. No Brasil, a revisão de 2011 cita evidência por sorologia de erliquiose humana, mas diz que o agente ainda não foi confirmado.
Cachorro que já teve doença do carrapato pode pegar de novo?
Pode. A diretriz europeia diz que a infecção anterior não deixa imunidade permanente. A prevenção com antiparasitário continua depois do tratamento.
Quanto tempo dura o tratamento da erliquiose?
O padrão das diretrizes é de 4 semanas de antibiótico. Na fase crônica, o hemograma pode levar 3 a 6 meses para se normalizar, e o veterinário repete os exames para acompanhar.
O teste rápido deu positivo, mas o cachorro está bem. E agora?
Positivo na sorologia mostra que o cão teve contato com a bactéria; não diz sozinho se a infecção está ativa. O veterinário cruza o resultado com o hemograma e pode pedir PCR, como recomenda a diretriz de 2015, antes de decidir.
Posso dar o antibiótico em casa sem levar ao veterinário?
Não. Dose, tempo de uso e os exames de controle dependem do peso, da fase da doença e de outros agentes que podem estar juntos. Remédio pela metade pode deixar a infecção sem resolver.
De onde vêm os números
Este artigo reúne informação de referência e não substitui a consulta com o médico-veterinário do seu cão, que examina, pede os exames e decide o tratamento. As fontes:
- Transmissão, transfusão, fases, sinais, exames, tratamento, recuperação do hemograma, risco para humanos e produtos de prevenção: Merck Veterinary Manual, Ehrlichiosis in Dogs (revisão completa em setembro de 2025, atualizado em junho de 2026), e a versão do manual para tutores.
- Incubação, duração das fases, plaquetas, tempo dos anticorpos, PCR, doxiciclina por 4 semanas, resposta em 24 a 48 horas, transmissão a partir de 3 horas, ausência de vacina, reinfecção e raças com quadro mais grave: Sainz Á, Roura X, Miró G, et al. Guideline for veterinary practitioners on canine ehrlichiosis and anaplasmosis in Europe, Parasites & Vectors 2015;8:75.
- Espécie principal no Brasil, clima tropical, sorologia por estado, plaquetas em Botucatu e erliquiose humana no Brasil: Vieira RFC, Biondo AW, Guimarães AMS, et al. Ehrlichiosis in Brazil, Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária 2011;20(1):1-12.
- Natal: Lopes MG, Krawczak FS, Lima JTR, et al. Occurrence of Ehrlichia canis and Hepatozoon canis and probable exposure to Rickettsia amblyommatis in dogs and cats in Natal, RN, Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária 2019;28(1).
- Mossoró: Nogueira LLC, Braga JFV, Sousa RLP, et al. Occurrence of pathogens transmitted by Rhipicephalus sanguineus sensu lato ticks in dogs in the semiarid region of Rio Grande do Norte state, Brazil, Pesquisa Veterinária Brasileira 2024;44.
- Doença de von Willebrand no Doberman e queda de plaquetas causada pela Ehrlichia: Merck Veterinary Manual, Platelet Disorders in Animals (revisão completa em fevereiro de 2025, atualizado em março de 2026).

Quem escreve
Marcelo Vaz
Empresário e fundador da Dobs Kennel
Marcelo Vaz é empresário e fundador da Dobs Kennel, canil de Dobermans em Nísia Floresta (RN). Ainda menino, já sabia qual cachorro queria ter. A paixão pelo Doberman atravessou os anos e virou o canil que ele conduz com a seriedade de quem esperou muito por isso. “Não somos veterinários, mas estudamos cada assunto a fundo e só escrevemos o que tem base na ciência e em fontes confiáveis”, diz.
- RegistroCBKC / FCI
- AfixoImperio Real Norte
- OndeNísia Floresta, RN
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